Theodorus = presente de Deus

16/04/2018 | Luiz Mascarenhas

Foto: Divulgação/Theodorus Marie Turkenburg era seu nome de batismo; nós o conhecemos por Pe. Luiz. O nosso Pe. Luiz Turkenburg.

Prof. Luiz Mascarenhas*

*Bacharel em Direito/Licenciado em História pela Universidade de Itaúna
 Historiador/Escritor/Membro Fundador da Academia Itaunense de Letras
Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências” e “Olhares Múltiplos”
Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria”
Cidadão Honorário de Itaúna

Falemos hoje de um presente, que há alguns anos se foi de nós.

Itaúna foi uma cidade muito feliz, em sua paisagem humana. Muito feliz.

“Por aqui, boa gente aportou…” Escreveu o Dr. José Valeriano Rodrigues –  então Promotor de Justiça de nossa Comarca – em nosso Hino Municipal e de fato; nossa Sant’Ana do João Acima deve muito a tantos que vieram de outras plagas e que por aqui se arrancharam e deram fecunda contribuição para o engrandecimento dessas barrancas.

Theodorus Marie Turkenburg era seu nome de batismo; nós o conhecemos por Pe. Luiz. O nosso Pe. Luiz Turkenburg.

Pe. Luiz Turkenburg nasceu na pequena cidade de Hillegon, na Holanda, no dia 06 de maio de 1926, filho de Nicolaas Gerardus Turkenburg e Alberdina Kroom Van Diest.

Seguindo jovem para o Seminário, ordenou-se padre pela Congregação do Espírito Santo, em 20 de julho de 1952. No ano seguinte, 1953, veio para a nossa Itaúna.

A vinda do Pe. Luiz Turkenburg para Itaúna está ligada a um pedido do então Pároco de Sant’Ana, nosso venerando Cônego José Ferreira Netto – de feliz e saudosa memória –  às voltas com os problemas para se conduzir os trabalhos do Colégio Sant’Ana… precisava de uma outra congregação religiosa para substituir uma americana que havia deixado o educandário.

Com a vinda dos Padres Espiritanos, nos chegaram vários sacerdotes holandeses, de cujas histórias e trabalhos  se fundem com a História de Itaúna  e permanecem bem vivos  no coração de quem teve a alegria de seu convívio ( este articulista foi um deles…) , como o próprio Pe. Luiz, o Pe. José do Colégio e o nosso preclaro amigo Pe. Giovanni Van de Laar, ex-pároco da Paróquia da Piedade; agora bem vívido em estado de plena graça, por ver um de seus frutos pastorais render tanto e pelas sutilezas de Deus,  no  ano de seu Jubileu de Ouro Sacerdotal … trata-se de  nosso Bispo Diocesano, Dom José Carlos de Souza Campos, no dizer do próprio Pe. Giovanni a este escriba, é “cria” ou seja uma das boas sementes, que ele ajudou a semear e  que caiu em um coração fértil dos Campos do Senhor, mesmo em meio a um “cerrado” ( no caso, nada árido) e tem produzido frutos a cem por um!

Mas…voltemos à grata memória do Pe. Luiz Turkenburg.

Não nos deteremos em datas… Permitam-me escrever com o coração.

Pe. Luiz teve um grande caso de amor! O bairro Pe. Eustáquio! Ou a Vila Pe. Eustáquio… como queiram. Lá deixou seu suor em obras e em espíritos!

O bairro, que leva o nome de outro santo sacerdote, também holandês, Humberto van Lieshout, que mais tarde seria conhecido como o Venerável Padre Eustáquio; se transformou, progrediu, prosperou com lutas e fainas incansáveis desse homem determinado e firme na Fé que foi nosso querido Pe. Luiz.

Pe. Luiz, como músico formado que era, atendeu também as demandas da cátedra de música da então Escola Normal de Itaúna, hoje, nossa Escola Estadual de Itaúna.

Vez por outra, nas tardes calmas e quentes de nossa terra, ainda posso ouvir  os acordes do piano ‘Fritz Dobbert” do salão do Estadual… Às vezes paro e penso também em minha própria história e nesses tantos que a cruzaram… Fui seu aluno de música, no Estadual…com o uniforme de tergal, o sapato preto da Vulcabrás e as  velhas canções… Hey Jude, Chuá chuá, Maringá, o Canto do Pajé de Villa Lobos… We shell overcome… e me pergunto; quantos ainda se lembram?

Pe. Luiz assumiu a Paróquia Na. Sra.de Fátima, do bairro Pe. Eustáquio, em 1959, e nela foi tudo, inclusive o Pároco. Na construção da Igreja Matriz do Bairro, ajudou a fazer massa para os pedreiros, carregou tijolos e latas de concreto, “bateu” laje… construía a Igreja de Deus; não com tijolos, muito mais com seu exemplo. Construiu o caráter de uma Comunidade, que hoje, ainda colhe os frutos imensuráveis de seu trabalho.

Fé e Obras! E põe obras nisso!  Para conseguir as melhorias em suas comunidades, Pe. Luiz teve que trabalhar demais. E nunca mediu esforços. Não teve vergonha de ser um   servente de pedreiro, um pintor e, desta maneira, dava exemplo e incentivava a comunidade que o seguia. Crer com as mãos. Pe. Luiz rezava seu credo, com a boca, com o coração e com as mãos!  Conseguia envolver toda a comunidade em um grande mutirão. Eram crianças, adultos e idosos colaborando. Era uma verdadeira festa a construção de uma nova Igreja, de uma nova Escola.

Pe. Luiz foi –sem sombra de dúvidas – um grande líder…Um Moisés para o bairro Pe. Eustáquio!  Sempre à frente de tudo; além das obras religiosas e educacionais, não se descuidava das caritativas. No Bairro Pe. Eustáquio fundou um refeitório para a alimentação gratuita de crianças carentes. No local também funcionava um gabinete dentário, mantido pela Igreja. Era responsável por aproximadamente quinze comunidades, dentre elas Várzea da Olaria, Irmãos Auler, Vila Tavares, Carneiros, Itatiaiuçu, Pinheiros, Santo Antônio da Barragem, Vieiros e Arrudas.

Encontrava tempo para coordenar todas as obras, assistir religiosamente suas comunidades, celebrar missas, casamentos e batismos, visitar doentes e pobres, apoiar e promover reuniões de cursilhistas, de jovens, de casais, de todos os inúmeros movimentos de sua Igreja.

Quando o Pe. Luiz ficava muito calado, em silêncio, é porque algo não estava do seu agrado. Depois procurava explicar o seu desagrado, com justificadas razões. Quem ainda se lembra do “motor”? Parecia uma daquelas velhas motos que se vê em filmes da Segunda Guerra… e o fusca que ganhou da Holanda? Chegava todo enlameado das suas jornadas pelas comunidades rurais, de estradas muito ruins na época; enlameado, porém muito feliz…

Uma nota dolorosa foi sua jornada pela doença. Mas, ainda assim, me lembro dele, de comércio em comércio, com aquela sonda e a continuar sua lida pelas obras de melhoria do seu querido bairro Pe. Eustáquio…

Às vezes penso, que esses homens foram feitos nas forjas de Deus e que, infelizmente, esses moldes já não existem mais…Um homem que acreditava e fazia e realizava e fazia acontecer o Reino de Deus em nosso meio! Com oração e louvor sim, mas também com o trabalho… com muito trabalho! Ele acreditava em Deus e se confiava à Virgem Santíssima; mas também acreditava nas pessoas…amava os seus e lhes queria bem! Amou profundamente a Deus, presente em cada ser humano que lhe foi confiado pela Igreja de Cristo.

23 de junho de 1994… Pe. Luiz Turkenburg voltou para a Casa do Pai…No dia do translado de seus restos mortais;  da necrópole municipal para o interior da sua Matriz de Fátima, eu lá estava; me lembro que alguém perguntou…”isso é um enterro ou uma festa?”, e alguém respondeu…”uma festa, porque devolvemos uma parte de nossa igreja que faltava…” Era simbólico, mas era como o arremate final da Igreja de Fátima!

E a ele, Theodorus Marie Turkenburg, se aplicam as palavras de Paulo, na segunda carta a Timóteo; e com autoridade:  “Combati o bom combate, acabei a carreira, guardei a fé. Desde agora, a coroa da justiça me está guardada, a qual o Senhor, justo juiz, me dará naquele dia…”

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