A Guerra na Síria

16/04/2018 | Luiz Mascarenhas

Reprodução da Internet: Guerra da Síria

Prof. Luiz MASCARENHAS*

A República Árabe da Síria é uma nação localizada no Oriente Médio, no Sudoeste da Ásia. Damasco é sua cidade mais importante e a capital do país e Alepo a segunda mais importante. A Síria faz fronteira com o Líbano e o Mar Mediterrâneo a oeste, a Jordânia no sul, Israel a sudoeste, Iraque no leste e Turquia ao norte. Seu território já foi bem diferente. No período Islâmico, Damasco era capital do Império Omíada; sede do califado de Maomé – designação adotada pelo sogro do profeta e seus sucessores, enquanto líderes do Islã.
Após a Primeira Guerra Mundial ( 1918) e da divisão do Império Otomano foi estabelecido o Mandato francês da Síria, por iniciativa da Liga das Nações, ou seja, de uma delegação jurídica fixada pela Sociedade das Nações; e um integrante deste grupo deveria, assim, gerir uma região alemã ou turca existente no passado.
Inglaterra e França dividiram este território – ingleses ao sul, no espaço que hoje compreende Palestina e Jordânia, e franceses no restante da Síria Otomana – Síria, Líbano e Província de Hatay, localizada na Turquia. A independência da Síria ocorreu em 1946 e esta se tornou uma república, com regime parlamentar.
Nos anos seguintes ocorreram inúmeros golpes de estado organizados por forças militares e outros tantos que abalaram a Síria de 1949 a 1970. A partir de 1962, o estado de sítio se tornou comum aonde todos os direitos constitucionais dos cidadãos foram suspensos.
A Guerra na Síria começou em 2011, dentro do contexto da Primavera Árabe quando houve uma série de protestos contra o governo de Bashar al-Assad, que a governada como ditador desde 2000 e antes disso, desde os anos 70, por seu pai, Hafez Al Assad. Há mais de 40 anos que a família Al Assad manda sozinha no país, até que em 2011 um grupo de estudantes resolveu protestar contra o governo por conta de Bashar Al Assad privilegiar alguns setores da sociedade em detrimento da população mais pobre.
Até então, por conta de a economia estar estável, havia bem poucas taxas de rejeição ao governo. Porém, quando os protestos ainda que pacíficos tiveram início pedindo melhorias como infraestruturas, moradias, melhores salários e outros, Bashar Al Assad ordenou que o exército fosse até as ruas prender os manifestantes e coibir as manifestações com grande truculência.
Estes conflitos bélicos foram deflagrados quando um grupo de cidadãos se indignou com as denúncias de corrupção reveladas pelo WikiLeaks. Em março de 2011 são realizados protestos ao sul de Derra em favor da democracia. A população revoltou-se contra a prisão de adolescentes que escreveram palavras revolucionárias nas paredes de uma escola. Como resposta ao protesto, o governo ordenou às forças de segurança que abrissem fogo contra os manifestantes causando várias mortes. A população revoltou-se contra a repressão e exigiu a renúncia do presidente Bashar al-Assad.
Nesta época, a região do Oriente Médio e Norte da África era sacudida por uma onda de protestos contra o governo que ficaram conhecidos como Primavera Árabe.
Em alguns casos, os ditadores viram o seu fim, como Bem Ali na Tunísia, Muammar Kadhafi na Líbia, Ali Saleh no Iêmen e Hosni Mubarak no Egito. Entretanto, o presidente sírio respondeu com violência e usou o Exército para se reprimir os manifestantes. Por sua vez, a oposição começa a se armar e lutar contra as forças de segurança. Brigadas formadas por rebeldes começam a controlar cidades, o campo e as vilas, apoiados por países ocidentais como Estados Unidos, França, Canadá, etc. Milhares de pessoas deixam a Síria e se refugiam na Turquia.
Os dois lados do conflito começam a impor o bloqueio de alimentos aos civis. Também é interrompido ou limitado o acesso à água. Por diversas vezes, as forças humanitárias são impedidas de entrar na zona de conflito.
Além disso, o Estado Islâmico aproveita a fragilidade do país e se lança a conquistar cidades importantes em território sírio. Sobreviventes relatam que são impostos duros castigos para quem não aceita suas regras. Entre eles estão espancamentos, estupros coletivos, execuções públicas e mutilações.
Quatro forças distintas atuam no conflito:
1. República Árabe Síria – liderados pelo presidente Bashar al-Assad, as Forças Armadas sírias tentam manter o presidente no poder e enfrentam três inimigos distintos. Tem o suporte do Iraque, Irã, Hezbollah libanês e Rússia.
2. Exército Síria Livre – está formado por vários grupos que se rebelaram contra Al-Assad após o começo do conflito em 2011. Recebem apoio da Turquia, Arábia Saudita e Quatar.
3. Partido da União Democrática – formado pelos curdos, este grupo armado reivindica a autonomia do povo curdo dentro da Síria. Desta maneira, curdos iraquianos e turcos se envolveram nesta luta. Tanto o Exército Síria Livre quanto os curdos recebem o apoio de Estados Unidos, União Europeia, Austrália, Canadá, etc. No entanto, o presidente Barack Obama e seu sucessor, Trump, se recusam a intervir militarmente na região.
4. Estado Islâmico – seu principal objetivo é declarar um califado na região. Apesar de terem capturados cidades importantes foram derrotados pelas potências ocidentais.
Além disso, o conflito é alimentado pela diferença sectária de sunitas e xiitas, sendo que os sunitas representam mais de 70{4f38b4b7d8b4b299132941acfb1d57d271347fbd28c4ac4a2917fcb5fee07f0b} da população; enquanto o governo do ditador Bashar al-Assad é xiita ( lá com a denominação de alauitas).
Podemos estabelecer uma pequena linha do tempo dos conflitos:

Ø Julho de 2011
Milhares de manifestantes voltaram às ruas e foram reprimidos pelas forças de segurança de Bashar al-Assad.
Ø Julho de 2012
Os combates chegam a Alepo, a maior cidade do país, antes do conflito.
A maioria sunita passa a se manifestar. Cresce a importância do grupo jihadista Estado Islâmico, dentro da guerra.
Ø Junho de 2013
A ONU anuncia que 90 mil pessoas morreram até aquela data como resultado dos conflitos.
Ø Agosto de 2013
Centenas morrem após um foguete despejar um agente químico nos subúrbios de Damasco. O governo culpa os rebeldes.
Ø Junho de 2014
O Estado Islâmico toma o controle de parte da Síria e do Iraque e proclama a criação de um califado, porém os ataques cessam quando os Estados Unidos ameaçam intervir no conflito.
Ø Abril a Julho de 2014
A OPAQ (Organização para a Proibição de Armas Químicas) registra o uso sistemático de armas químicas.
Ø Setembro de 2014
A coalizão internacional liderada pelos Estados Unidos lança um ataque aéreo contra a Síria.
A Rússia inicia ataques aéreos e é acusada de matar rebeldes e civis com apoio do ocidente.
Surgem as alianças políticas, como a Coalizão Nacional da Síria Revolucionária e das Forças de Oposição.
Ø Agosto de 2015
Combatentes do Estado Islâmico promovem assassinatos em massa, a maioria por decapitação.
O Estado Islâmico usa armas químicas na cidade de Marea.
Sírios tentam chegar à Europa pela costa da Grécia
Ø Março de 2016
As forças de Al-Assad reconquistam a cidade de Palmira das mãos do Estado Islâmico. Durante todo o ano de 2016 são feitas algumas reuniões entre as partes beligerantes a fim de alcançar a paz.
Ø Setembro de 2016
As forças russas e exército sírio bombardeiam Alepo e reconquistam. A batalha pela cidade durou quatro anos e se tratava de um ponto estratégico importante, pois é a segunda cidade mais importante do país.
Ø Janeiro de 2017
Começam as negociações que serão conhecidas como o “Processo de Astana” quando vários atores da guerra tentam negociar um cessar-fogo. O Acordo de Astana foi ratificado apenas por Russa, Irã e Turquia, não sendo ratificado pela governo sírio ou a oposição no exílio.
Ø Abril de 2017
O Exército sírio lança um ataque com gás sarin à população civl da cidade de Khan Shaykhun. no dia 4 de abri, deixando uma centena de mortos. Como resposta, pela primeira vez, os Estados Unidos atacam diretamente a base síria d’Al-Chaayrate lançando mísseis.
Ø Setembro de 2017
As Forças Democráticas Sírias e o Estado Islâmico travam uma luta pela posse zona de Deir ez-Zor, rica em petróleo. A batalha segue em curso.
Ø Fevereiro de 2018
Em 18 de fevereiro de 2018, o exército de Bashar al-Assad, passou a atacar violentamente a região de Ghouta, reduto que lhe faz oposição. Estima-se que mais de 300 pessoas foram mortas durante o bombardeio.
Em 24 de fevereiro de 2018, a ONU decretou uma pausa humanitária a fim de fazer entrar um comboio na zona conflitiva de Guta Oriental. Igualmente, o presidente russo Vladimir Putin, determinou uma pausa de cinco horas.
O objetivo era entregar remédios, roupas e alimentos para os civis, cerca de 400.000, que estavam entre os dois exércitos combatentes. O cessar-fogo, porém, não foi respeitada por nenhum dos lados, e mais mortes ocorreram.
Ø Abril de 2018
O bombardeio de Estados Unidos, França e Reino Unido a alvos supostamente relacionados a armas químicas na Síria começou por volta das 4h da madrugada na Síria (22h de sexta-feira em Brasília), no momento em que o presidente norte-americano Donald Trump anunciava a ação.
A Rússia chegou a afirmar que a defesa antiaérea síria interceptou 71 mísseis, no entanto, o Departamento de Defesa dos EUA disse que nenhum dos 105 mísseis disparados sofreu interferência.

Alguns números do conflito:

ü 320.000 a 450.000 pessoas já morreram no conflito.
ü 1,5 milhões ficaram feridas.
ü 5 milhões de refugiados. A Turquia é o principal destino e recebeu 2,7 milhões e a União Europeia, 160.000 somente em 2016.
ü O Brasil, até 2016, tinha concedido a entrada a 2.252 sírios.
ü 6,5 milhões de pessoas foram deslocadas internamente.
ü 1,2 milhão de sírios foram obrigados a deixar suas casas apenas em 2015.
ü A produção de petróleo era de 385.000 barris por dia em 2010, porém em 2017 era 8.000 barris/dia.
ü 35{4f38b4b7d8b4b299132941acfb1d57d271347fbd28c4ac4a2917fcb5fee07f0b} do território, onde vive 70{4f38b4b7d8b4b299132941acfb1d57d271347fbd28c4ac4a2917fcb5fee07f0b} da população, está controlado pelo Exército sírio. Já o Estado Islâmico domina 40{4f38b4b7d8b4b299132941acfb1d57d271347fbd28c4ac4a2917fcb5fee07f0b}; os rebeldes detêm 11{4f38b4b7d8b4b299132941acfb1d57d271347fbd28c4ac4a2917fcb5fee07f0b}; e os curdos, 14{4f38b4b7d8b4b299132941acfb1d57d271347fbd28c4ac4a2917fcb5fee07f0b}.
ü 70{4f38b4b7d8b4b299132941acfb1d57d271347fbd28c4ac4a2917fcb5fee07f0b} da população não têm acesso à água potável.
ü 2 milhões de crianças estão fora da escola.
ü Antes da guerra, a população síria era de 24,5 milhões. Agora, calcula-se que seja de 17,9 milhões.
ü A pobreza atinge 80{4f38b4b7d8b4b299132941acfb1d57d271347fbd28c4ac4a2917fcb5fee07f0b} a população, que não têm condições de acesso a alimentos básicos.
ü A inflação dificulta o acesso aos alimentos, o leite ficou 20 mil vezes mais caro, o pão 3 mil vezes e os ovos 6,5 mil vezes.
ü 15 mil militares de 80 nações estão na linha de frente do conflito.
ü Apoio dos Estados Unidos e outros

O Governo norte-americano já declarou apoio à população Síria e ser contra o Governo de Bashar Al Assad, por conta dos ataques violentos ocorridos no país. Juntamente com a França, o Reino Unido, a Turquia e a Arábia Saudita. Em resposta ao ataque químico que Bashar Al Assad autorizou e que matou 80 sírios em abril deste ano, os EUA lançaram 59 mísseis Tomahawk contra uma base aérea da Síria.
Os Estados Unidos estão contrários ao governo Sírio e em Guerra contra o Estado Islâmico, que por sua vez também está em Guerra contra o Governo Sírio. Já a Arábia Saudita, que apoia os Estados Unidos contra o Governo Sírio, também apoia o Estado Islâmico por questões religiosas.
Enquanto isso, a Guerra continua e cerca de 470 mil pessoas já morreram – incluindo crianças. Aos que tentam sair do país, há o risco de morrer afogados em embarcações extremamente precárias. Aos que ficam, a certeza de acabarem mortos por bala, explosão, gases ou ainda, conviverem com a falta de comida, energia, remédios e cuidados.
Logicamente existem diversos e diferentes interesses envolvidos na questão da Síria. EUA e a União Europeia querem – dentre outras coisas- a eliminação do ISIS ( Estado Islâmico), independentemente de Assad ficar ou não no perder e assim, esperam reduzir o número de refugiados
Agora, resta-nos observar os desdobramentos do conflito, que – ao envolver diversas potências- pode levar o mundo a uma guerra com caráter mundial.

*Bacharel em Direito / Licenciado em História pela UNIVERSIDADE DE ITAÚNA
Historiador/ Escritor/ Membro fundador da ACADEMIA ITAUNENSE DE LETRAS/
Autor de “Crônicas Barranqueiras” e coautor de “Essências” e “Olhares Múltiplos”/
Diretor da E.E. “Prof. Gilka Drumond de Faria”
Cidadão Honorário de Itaúna


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