NO AR AGORA

Rádio Santana FM

Itaúna, 15 de junho de 2021

     Durante a Semana Santa, verifica-se a presença  de famílias ou casais ou grupos de pessoas já mais maduros em idade e que possuem maior estabilidade financeira e portanto, com maiores recursos destinados a seus gastos e o fazem em apreciação a Arte, a Cultura e a boa gastronomia e ainda, com vantagem de não depredarem o Patrimônio e nem deixarem um rastro de resíduos que poluam o ambiente…( por exemplo, como fazem grande parte dos  jovens nas festividades do carnaval de Ouro Preto).

     Minas Gerais se difere em muitos aspectos de outros estados da federação. A religiosidade do povo mineiro o destaca e assinala de maneira indelével sua identidade cultural frente à nação.

     Para se entender tudo isto, se faz necessário estudar e compreender a própria formação das Minas.

     As Minas, como é bem sabido, se formaram no esteio da descoberta dos veios auríferos, em fins do séc. XVII e começo do XVIII…Na verdade, a Coroa Portuguesa já aguardava ansiosa por estes descobertos havia muito tempo  e gerenciou vários mecanismos de incentivo aos mesmos.

     Primeiro, antes que algum nacionalista se manifeste, não havia nada de estranho nisso. Precisamos ressaltar, como o faço sempre em minhas aulas, que neste período, o Brasil, nada mais era do que uma possessão portuguesa além mar. Ou seja, quase ninguém entendia naquele recuado período que seria “errado” Portugal levar daqui as riquezas produzidas. Até mesmo, não havia ainda de forma bem definida, bem delineada o que seria o Brasil; porque afinal de contas, éramos uma extensão de Portugal que ficava na América.

     Outro dado que temos de levar em conta, é que a própria Coroa Portuguesa tratou essas terras como duas colônias, desde meados   do séc. XVI …A partir do Governo Geral ( 1572) havia uma separação entre o norte e o sul ( sedes em Salvador e Rio de Janeiro)  que depois desaguou em dois “estados” ou duas possessões…O Estado do Maranhão e Grão Pará e o Brasil. Esta situação perdurou até o ano de 1772, quando a filosofia Iluminista deita suas raízes em solo lusitano através do Governo do Marquês de Pombal, que unificou as terras portuguesas na América.

     Mas, retornemos  ao caso das Minas.

    Devido à descoberta do ouro em fins do séc. XVII, assistimos no então Sertão dos Cataguases ( uma de nossas primeiras denominações) àquilo que se chamou de “Corrida do Ouro”… Foi nos riachos pedregosos e nas encostas das serras e quiçá nas ladeiras da antiga Vila Rica, que se encontraram pela primeira vez, o poncho rio-grandense com o gibão de couro do nordestino…aqui o Brasil se viu frente a frente pela primeira vez…Daí a efervescência das minas.

     Sertão bruto, terra de ninguém, aonde a Lei e o Estado Português ainda não haviam chegado. Ouro, muito ouro…cobiça, ganância, violência e morte…O nascedouro das minas está vinculado diretamente a “auri sacra fames”, ou seja à maldita fome do ouro, em expressão do poeta romano Virgílio (Publius Vergilius Maro; Andes, 15 de outubro de 70 a.C. — Brundísio, 21 de setembro de 19 a.C.).

     Quando o ouro, que no seu início era de aluvião, ou seja, encontrado junto aos cascalhos nas barrancas dos rios, passou a “fugir” para o interior das montanhas e foi necessário portanto a escavação das primeiras  minas, atrás do veio do ouro; e após os grandes surtos de fome ( entre 1700 e 1704) o homem finalmente se estabeleceu nas minas.

     Esta fixação do homem à terra das minas teve características bem peculiares. Os portugueses trouxeram a sua Fé católica para essas terras…Nos baús dos tropeiros, que saíam do litoral paulista ( São Paulo, Borda do Campo, Guaratinguetá…) vinham os famosos oratórios com seus santos de devoção. Recomendo uma visita atenta ao belo Museu do Oratório em Ouro Preto para se entender bem o espírito de nossos pioneiros e povoadores.

     Surgindo uma aglomeração humana, em curto período de tempo, chantava-se um cruzeiro em um monte próximo, como a se evocar para o povo, as bênçãos e a proteção divina.

     Foi à sombra desses velhos cruzeiros que foram erguidas os primeiros e toscos oratórios públicos…construídos de taipa e pau a pique.  Logo após certo interregno de tempo, deram lugar às primeiras capelas ( nossa Itaúna também foi assim, com relação a atual Igreja do Rosário).

     Com o avançar do tempo e o crescente povoamento e a chegada e implantação da máquina administrativa portuguesa ( já perdulária e corrupta ….e dá para se refletir e muito sobre essa questão…) a Sociedade Colonial foi se organizando portanto.

Aquele santo de devoção particular se tornou um motivo para rezas em conjunto em alguma casa.

                 Logo se construíram oratórios públicos. Em Ouro Preto ainda se preservam alguns, o mais famoso ali está na esquina da Rua dos Paulistas no bairro de Antônio Dias.

Viajantes estrangeiros que visitaram as minas e a cidade de Ouro Preto, nos sec. XVIII e XIX , como Antonil, Mawe, Auguste Saint-Hilaire, Luccock, Walsh, Gardner, Castelnau, Millet de Saint-Adolphe, Burton;  deixaram registrado em seus diários, hábitos comuns dos moradores, como se reunirem cotidianamente defronte a estes oratórios por volta das dezoito horas para as rezas do terço e canto das ladainhas.

                Bem, essa devoção pública acabava por reunir algumas famílias…daí surgem as primeiras irmandades ou confrarias.

                Para se entender a formação das minas, há de se estudar as irmandades, confrarias e ordens terceiras, pois a Sociedade Colonial nelas se encontrava  estratificada e nelas a vida religiosa que se confundia com a social acontecia.

                Para se configurar uma confraria ou irmandade era necessário todo u
m procedimento jurídico. Vale lembrar que neste período setecentista, Estado e Igreja andam juntos e o Absolutismo não conhecia separação de poderes, por isso, as Câmaras Municipais acabavam por aglutinar  também os três poderes em uma vila ou cidade.

                Uma confraria ou irmandade, uma vez confeccionado o seu “Compromisso” que era uma espécie de estatuto da mesma, precisavam da aprovação de seu bispo ( Mariana, no caso das minas; desde 1745…) e de El Rei, em Portugal. Já as Ordens Terceiras, o processo era mais complexo, porque necessitavam da aprovação de seus estatutos pelo bispo, pelo rei e pelo papa em Roma.

                Por que “ordem terceira? As Ordens terceiras são   associações de leigos católicos, vinculadas às tradicionais ordens religiosas medievais, em particular às dos franciscanos, carmelitas e dominicanos. Deveriam ( ou devem, porque ainda existem)  pautar suas vidas seguindo fielmente a regra de vida da Ordem a que pertencessem.

                Foram essas irmandades, confrarias e ordens terceiras que construíram as igrejas das minas.

                Devido ao ouro, logo o rei de Portugal baixou decretos e leis que impediam as Ordens religiosas de estabelecerem casas ( ou seja, conventos e mosteiros) na região das minas. Por que? Fácil a resposta. Precisava de mão de obra nos diversos trabalhos relacionados à extração mineral e não rezando recolhidas em conventos.

                Daí que a Igreja das minas assumiu também uma conotação diversa da presente em outros pontos do país. Uma igreja dada a muitas devoções particulares dessas mesmas irmandades, confrarias e ordens terceiras.

                A Sociedade Colonial  se estratificava nelas. A elite, brancos e ricos, presentes nas Ordens Terceiras do Carmo e São Francisco, além da poderosa Irmandade do Santíssimo Sacramento. Estas construíam as Igrejas Matrizes…e veja hoje, as igrejas mais ricas, mais suntuosas nas cidades históricas ( Ouro Preto, São João del rei, Sabará, Serro, Diamantina e tantas outras…) são as do Carmo e São Francisco, além das matrizes…

                Negros tinham seu lugar na Irmandade do Rosário… sempre presentes nas nossas belas cidades históricas as Igrejas de Nossa Senhora do Rosário. Os pardos, tinham as Confrarias das Mercês, de São Miguel e Almas, de São José e etc…

                Quer conhece-las? Basta ir a São João del Rei ou Ouro Preto e poderá as observar nas solenes procissões…lá estão até os dias de hoje…cada qual com suas opas ( uma espécie de avental que usam sobre os ternos e vestidos negros) com suas cores e distintivos próprios.

                Cada irmandade, confraria ou ordem terceira com sua própria igreja e seu cemitério…

                As igrejas barrocas pertencem portanto a essas irmandades, confrarias e ordens terceiras e não propriamente à Igreja Católica como instituição como se pensa.

                Uma curiosidade…os juízes das Irmandades levam varas de prata durante as procissões….provavelmente daí se originaram os termos “vara de família”, “vara criminal” e etc, que são utilizados pelo Judiciário nos dias atuais.

                Minas Gerais é para mim, é o assunto da minha vida…minhas raízes…cheira a Família…da Tradicional, sentado na taipa do fogão a lenha e ouvindo as histórias dos antigos.     Fico por aqui, porque demais já me alonguei…

                E como nos diz Guimarães Rosa…”Minas são muitas” e ainda Carlos Drummond de Andrade  :  “As montanhas escondem o que é Minas… Só mineiros sabem. E não dizem nem a si mesmos o irrevelável segredo chamado Minas. “

*bacharel em Direito e Licenciado em História pela Universidade de Itaúna

Diretor da E.E. “Porf. Gilka Drumond de Faria”