A única constante da vida é a mudança

Reprodução da internet

*Nilmar Silva

Não são raros os momentos em que nos deparamos com aquela visita inesperada de uma urgência que se impõe. É quando mais nos sentimos prontos, organizados e satisfeitos que urge uma nova situação: alterações nos campos da vida sentimental, profissional, familiar e, por que não, da saúde? São aqueles toques nada suaves da vida que nos lembram sobre a doce ilusão da estabilidade.

Desde a inauguração do conceito de logos (razão), instaura-se uma enorme tentativa, sobretudo das instituições, de driblar aquilo que escapa. A crise (econômica, política, existencial), tão debatida , veio como que um tsunami, colocando em xeque o possível sentimento ao qual nos agarramos de que somos donos de alguma coisa ou que pertencemos a algum lugar de forma definitiva. Desemprego, demissões, medo, manejo: esse conjunto de palavras talvez faça parte do seu cotidiano também, e até quem andava instaurando a ordem e deferindo regras pode estar se vendo, agora, sem lugar.

Mas, o que nos resta frente a esse cenário tão instável? Como manter a nossa sanidade mental dentro desse jogo de perdas e ganhos que já começou lá dentro da barriga das nossas mães? Aliás, dá pra “ganhar” esse jogo? Bem, parece que o ponto G da questão é “mais embaixo”. Se uma das condições para que haja a vida é o movimento, a mudança, às vezes repentina, não suporta inferiorizar-se no placar. Há de munir-se, cada um de nos, de ferramentas bem encorpadas para lidarmos com as intempéries da vida que, claro, não é para principiantes.

Em tempos de modernismos e fome de avanço, nada como sermos pelo menos gratos a quem começou a pensar boa parte de tudo que temos elaborado racionalmente , hoje. Os gregos foram mestres da palavra, do raciocínio, da habilidade ímpar em construir conceitos. E os conceitos, bem sabemos, são avaliações capciosas da realidade. O filósofo jônico Heráclito (VI e V a.C), talvez o meu preferido, destacou-se de forma brilhante dos seus outros parceiros de ofício porque soube captar a essência de um dos axiomas da vida que perpassa o tempo. Portanto, ainda novo, mesmo que tradicional: “panta rhei” (tudo se move, tudo escorre).

Claro, os filósofos da physis (física, matéria) não estavam diretamente deliberando sobre as mudanças das quais escrevo aqui. Eles ainda falavam das coisas materiais, daquilo que era literalmente palpável, rústico, ainda rudimentar. Porém, ao escolher o fogo como o princípio de todas as coisas, o filósofo de Éfeso conseguiu, de modo visionário, captar algo que jamais poderá ser refutado: as coisas, as pessoas, nós, a vida… todos mudamos.

O significante do fogo, como aquele que transforma, doa o que doer, não foi uma metáfora vazia, desconectada da realidade. O fogo, ainda visto sobre o prisma da sua materialidade, ainda é um elemento que se coloca a serviço da mudança, da modificação. Talvez por isso, pra maioria das pessoas, a coisa muda é quando “está pegando fogo”.

Seja qual for o campo da nossa atuação, humanizar-se passa muito pela ordem da maleabilidade. Não dá mais para agarrar-se a padrões pré-estabelecidos e estereotipados. O que é uma família, o que é um bom emprego, o que é uma carreira de sucesso, tudo isso ocorre de maneira transitória, volátil, deslizante. Bem sucedido será aquele que compreender que, tal como o fogo, a vida exige bem mais que ficar parado sempre no mesmo lugar. Aliás, o que é ser “bem sucedido” mesmo? Isso pode ter mudando enquanto aqui escrevo…

*Nilmar Silva é psicólogo (CRP 04/47630), filósofo, professor e especialista em educação. Faz atendimentos clínicos em seu consultório, escreve a coluna Psicologia em Foco da Santana FM e mantém o canal no YouTube Psicologia em Minutos, abordando temas ligados à saúde mental, recursos humanos, dentre outros.

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