Afinal: o que quer um casal?

6/07/2017 | Psicologia em Foco

 

*Nilmar Silva

Em tempos de “Amor Líquido”, nos dizeres do sociólogo polonês Zigmunt Bauman, não são raros os casos de relacionamentos atravessados, mal acabados (e começados também), revelando uma forma tão peculiar deste nosso tempo que assinala o nosso jeito de lidar com o outro: a descartabilidade. Para tanto, vários artifícios estão ao nosso alcance, fazendo a nossa vida amorosa ficar mais “fácil”. São chats, aplicativos e vários outros dispositivos que nos são apresentados como uma modalidade prática e corriqueira de “encontrar alguém”, de preferência o grande e tão esperado amor da nossa vida, mesmo que isso surja até mais que cinco ou seis vezes no nosso “status de relacionamento”, na nossa rede social de cada dia e, mais atual que nunca, na selfie tão (des)necessária. O que surge é justamente esta velocidade, esta rapidez e fluidez para encontrar e desencontrar um grande amor.

O que nos passa que, logo no início, parece que há “algo” que faltou no outro que nos deixa insatis(feitos), pelo menos? Denise Maurano (2006) alerta-nos que “vivemos na Era da Libido, na qual esperamos que o amor e a sexualidade resolvam os impasses de nossas vidas, já que não acreditamos mais que seremos salvos pela organização das leis, nem por Deus, nem pelas luzes da racionalidade humana”.

Desta forma, parece que depositamos no Outro, neste no qual nos alienamos facilmente, a responsabilidade de, preferencialmente pela via sexual estrita, um bem-estar inatingível, mas que cremos nele poder desfrutar. Se por um lado é esta crença que nos move em direção a alguém e nos torna seres de relação, por outro lado a “cegueira” ou “aposta de todas as fichas” parece ser a outra face da moeda difícil de conseguir pagar.

Assim, a pergunta que intitula este breve texto não nos levará (tão menos em poucas linhas) a uma resposta exata e que sirva de “bula” sobre o que quer e o que deve fazer um casal. Longe disso. Parece-nos mais prudente perguntar: qual é o meu desejo mesmo dentro deste casal que formo? E mais: eu preciso que o outro banque-o para mim? Sábio, necessário e real é o pensamento de Fernando Pessoal advertindo-nos que “enquanto não atravessarmos a dor de nossa própria solidão, continuaremos a nos buscar em outras metades. Para viver a dois, antes, é necessário ser um”. MAURANO, Denise. A transferência. Uma viagem rumo ao continente negro. Rio de Janeiro: Jorge Zahar: 2006. (Psicanálise passo-a-passo).

*Nilmar Silva é psicólogo (CRP 04/47630), filósofo, professor e especialista em educação. Faz atendimentos clínicos em seu consultório, escreve a coluna Psciologia em Foco da Santana FM e mantém o canal no Youtube Psicologia em Minutos, abordando temas ligados à saúde mental, recursos humanos, dentre outros.

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