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Rádio Santana FM

Itaúna, 25 de junho de 2021

 

                A capela foi construída no então Morro de Santa Cruz, pois tudo leva a crer que nele já existia um cruzeiro, como era praxe e costume aqui nas Minas Gerais, se fincarem cruzeiros nos altos dos montes, perto das povoações…isso se explica como um sinal de permanência do homem na terra e sua necessidade das bênçãos do Céu. Um sinal do “divino” entre as pessoas a recordá-las sempre das promessas e proteção do Eterno.

                Ao passar por nossas terras, os frades franciscanos capuchinhos, vindos da Itália, ditos “barbôneos” com a missão da Sagrada Propaganda “Fide” de Roma, recomendaram que se construísse no interior do cemitério ( hoje EE “José Gonçalves de Melo”) a Capela de São Miguel e no alto do Morro de Santa Cruz, a Capela do Senhor do Bonfim; daí sua origem.

                Agora…restam escombros e cinzas.

                Precisamos sempre elucidar o valor intrínseco do nosso Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. A pequena Capela do Bonfim era destituída de grandes   traços arquitetônicos que chamassem a atenção e nem continha obras sacras de algum valor financeiro. Porém, é na sua grande simplicidade que residia sua beleza…que para muitos olhares, transmitia aquela sensação de paz e harmonia com o sítio entorno onde se localiza.

                Patrimônio tem a ver com nossas raízes, nossa História, nossa identidade cultural. Aquilo que nos identifica; singulariza enquanto povo das barrancas do Rio São João.

                Todas as cidades são dotadas de Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural. Algumas pessoas, quando nos referimos a esses valores, pensam que Patrimônio se restringe apenas às cidades ditas históricas do Ciclo do Ouro, como logo vem à mente, Ouro Preto, Mariana, Sabará, São João del Rei e tantas outras…Mas, nós, itaunenses, também temos a nossa História particular e Itaúna também possuí ainda, algumas pouquíssimas edificações e sinais do nosso passado histórico. Dentre esses; o nosso marco mais exponencial que é a Capela do Rosário e cujo altar-mor se encontra desmontado e se arrasta uma indefinida reforma…também triste de se ver.

                Podemos mencionar também, o prédio da antiga Estação Ferroviária, convertido em Museu Municipal…lá está quase a desabar, aguardando aflitivamente sua reforma.

                E agora….este terrível incêndio.

                O meliante que o fez, não imaginou que ao atear fogo na pequena capela, estaria destruindo parte de nossa História. Aqui, o valor histórico ultrapassa e muito a questão de ser ou não um templo religioso católico.

                Feriu-se a memória de Itaúna. Feriu-se a alma do povo barraqueiro de Sant’ana do Rio São João. Parte de nosso Patrimônio Histórico, artístico e cultural virou cinzas….

                A Capela do Bonfim pertence à Paróquia de Nossa Senhora de Fátima do bairro Pe. Eustáquio e está dentro dos bens tombados da nossa Diocese de Divinópolis.

                O Poder Público ( Prefeitura Municipal) é responsável pela criação e condução de uma Política Pública de conservação e preservação de nosso Patrimônio Histórico, Artístico e Cultural.              

                Esse mecanismo é prescrito pela Lei ( Constituição Federal e outras) . Assim como, o Ministério Público deve atentar-se sempre para esses mesmos bens.

                Que todo esse trágico episódio nos sirva como dolorosa lição.

                Há tempos que o alto do Bonfim tornou-se um ponto para consumo de drogas ilícitas; ponto para a marginalidade. Quem sabe, a partir daqui, não se construa ali, algo para a civilidade…algo para o nosso Turismo; algo para a nossa gente desfrutar de tão bela vista…de tão aprazível sítio.

                Itaúna vai perdendo muito de seu patrimônio. Aqui em nossa cidade, nunca se optou pela conservação do passado no desenvolvimento urbano. Essa nunca foi uma preocupação presente em nossa comunidade. O uso do solo urbano deveria ser melhor regulamentado. Derruba-se imóvel e bem no coração da cidade se constrói o que mesmo? Nada!

                Que o fogo desse incêndio tenha o poder também de acender as nossas consciências, para que possamos dar o correto valor à nossa História, ao nosso Patrimônio e juntos, Sociedade Civil e Poder Público, repensarmos nossas atitudes e direcionar ações concretas para efetivamente salvarmos o que ainda resta de nossa Identidade Cultural; caso contrário, as gerações futuras poderão nos acusar de negligentes e alienados frente a nossa própria História.

                Vamos, com certeza, juntar forças e reconstruir nossa Capela do Bonfim…porém a perda histórica é irreparável.

                Pesar e tristeza ante mais essa violência que a todos nos atingiu.< /span>

                “O zelo pela tua Casa me consome…” Salmos 69:9

*Bacharel em Direito e Licenciado em História pela Universidade de Itaúna.

profluizmascarenhas@hotmail.com