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Rádio Santana FM

Itaúna, 15 de junho de 2021

A baixa disponibilidade e as falhas de distribuição são os principais problemas – Foto: Ingrid Vasconcelos/Agência Minas

 

 

Dados do Programa Nacional de Imunizações (PNI) indicam que aproximadamente 212 mil mineiros tomaram a segunda dose da vacina contra a Covid-19 fora dos prazos indicados na bula.

 

E esse número vai aumentar muito, pois outras 530 mil pessoas já deveriam ter recebido o complemento no Estado, mas as injeções adicionais não haviam sido aplicadas ou ao menos registradas no sistema até a última segunda-feira (17).

 

Segundo o levantamento, a maioria dos casos refere-se à vacina Coronavac (Sinovac/Butantan), a mais utilizada no Brasil e cujo intervalo recomendado é menor, de 14 a 28 dias entre as doses. Mas também já existem milhares de registros de aplicações da Covishield (AstraZeneca/Fiocruz) fora do período adequado, de 28 a 84 dias.

 

A baixa disponibilidade e as falhas de distribuição são os principais problemas. Em março, o Ministério da Saúde recomendou que as prefeituras deixassem de reservar a segunda dose, mesmo sem estudos que demonstrassem o prazo máximo para uma aplicação complementar segura e eficiente – a orientação foi revertida no fim de abril, após municípios terem relatado aumentos acelerados na defasagem e interrompido as aplicações por falta de vacinas. O levantamento também pode incluir alguns casos de pessoas que desistiram ou se esqueceram do prazo, por exemplo.

 

No caso da Coronavac, 90,2% dos mineiros que já haviam concluído o esquema vacinal receberam a segunda dose dentro do prazo indicado, e outros 6,5%, até uma semana depois. Os 3,3% restantes (51,2 mil pessoas) tomaram o complemento antes do intervalo mínimo ou mais de sete dias após o prazo máximo recomendado. Essas diferenças mais longas irão aumentar nas próximas semanas, pois o atraso médio já era de 20 dias entre as 468 mil pessoas que deveriam ter recebido a segunda dose e ainda estavam na fila, de acordo com os dados do PNI.

 

Entre os vacinados com a Covishield, apenas 32,9% tomaram a segunda dose dentro do prazo indicado na bula. Considerando também aqueles imunizados em até 91 dias – a maioria das prefeituras “arredonda” a aplicação para três meses de diferença –, essa parcela sobe para 93,3%. Os outros 6,7% (cerca de 5,8 mil pessoas) receberam a aplicação complementar antes do intervalo mínimo ou mais de uma semana após o prazo máximo indicado na bula. Entre os 62,8 mil mineiros que já deveriam ter tomado o complemento e ainda aguardam, os dados do PNI indicam um atraso médio de 14 dias.

 

Chama atenção o aumento rápido na fila de pessoas ainda por receber a segunda dose já atrasada. Há pouco mais de um mês, em 13 de abril, havia “apenas” 89 mil mineiros nesta situação, de acordo com dados divulgados na época pelo Ministério da Saúde.

 

 

 

‘Tome assim que possível’

 

Para dois especialistas consultados,  os números evidenciam falhas no planejamento e na execução da campanha em todo o país. Além disso, eles ressaltam que a população na fila da segunda dose continua desprotegida e exposta à infecção, uma vez que o esquema vacinal não foi concluído.

 

Por outro lado, ambos dizem que não há motivo para desespero entre as pessoas que estiverem nesta situação, pois atrasos dentro de uma margem “razoável” não devem comprometer a proteção contra o coronavírus ou provocar efeitos colaterais além dos esperados.

 

“Em primeiro lugar, o ideal seria seguir aquilo que foi comprovado nos estudos, ou seja, que as pessoas sejam vacinadas com as duas doses e dentro dos prazos aprovados, pois essas são as evidências científicas que nós temos sobre a eficiência. Tudo que esteja além disso não tem respaldo dos laboratórios, pois ainda não houve tempo para trabalhos nesse sentido”, destaca o pediatra e infectologista Alexandre Braga, subcoordenador do curso de Medicina da Faculdade Ciências Médicas.

 

Feita esta observação, ele considera que há baixa probabilidade de perda da efetividade após atrasos de alguns dias ou semanas, baseado nos conceitos gerais de imunização e nos estudos das chamadas “vacinas clássicas”. Para o professor, o mais relevante neste momento é conscientizar os cidadãos sobre a importância de se completar o esquema vacinal. “A pessoa pode ficar insegura e achar que não deve tomar a segunda dose, e esse não deve ser o entendimento de forma alguma. É sempre preferível que se tome as duas doses, mesmo com atraso”, enfatiza Braga.

 

Professor titular da Faculdade de Medicina da UFMG, o médico sanitarista e infectologista Geraldo Cury segue o mesmo raciocínio. “Por que tem esse prazo na bula? Porque foi o prazo estudado e aprovado. Não significa que a vacina não funcione dentro de outros intervalos, mas isso ainda não foi comprovado. Então, vale o que está na bula, o que já está testado e aprovado para o uso”, explica.

 

Cury também alerta os cidadãos para que não deixem de tomar as duas doses. “A dúvida que fica para as pessoas é: ‘o prazo passou, o que eu faço agora?’. Bom, você vai tomar assim que estiver disponível, mesmo que atrasada”, reforça o professor.

 

Mesmo acreditando que não haverá prejuízos para esses cidadãos, Cury ressalta que os atrasos não deveriam ocorrer. “A vacinação está uma verdadeira confusão. Nunca aconteceu isso em nenhuma campanha no Brasil. E isso está acontecendo agora porque não temos a coisa mais importante numa campanha de vacinação, que é a vacina. Todas essas demandas e questões vêm em função da ausência de vacinas”, conclui.

 

Respostas

 

Em nota, a Secretaria de Estado de Saúde de Minas Gerais (SES-MG) informou que, até a noite da segunda-feira (17), havia um déficit de apenas 7.800 doses para completar o esquema vacinal com duas doses para os grupos prioritários imunizados com a Coronavac, considerando as remessas mais recentes enviadas pelo Ministério da Saúde e que começaram a ser aplicadas no último fim de semana. Até a sexta-feira passada, o governo estadual calculava que 370 mil mineiros estavam com a segunda dose da vacina do Butantan em atraso.

 

A SES também foi questionada sobre os atrasos na aplicação da Covishield, mas não enviou mais esclarecimentos. “Com relação às pessoas que tomaram a segunda dose fora do prazo recomendado, o referido levantamento está em andamento, e a expectativa é de que os dados estejam disponíveis até o final desta semana”, diz o comunicado.

 

O governo federal, por sua vez, reafirmou que a população deve tomar a segunda dose da vacina mesmo que a aplicação ocorra fora do prazo recomendado pelo laboratório. “Essa é a orientação do Ministério da Saúde, que reforça a importância de se completar o esquema vacinal para assegurar a proteção adequada contra a doença”, destacou em nota.

 

A pasta informou que realiza, com apoio do Conselho Nacional de Secretários Estaduais de Saúde (Conass) e do Conselho Nacional de Secretários Municipais de Saúde (Conasems), uma avaliação do andamento da campanha de vacinação contra a Covid-19 em todo o país, e que a distribuição de doses aos Estados é estimada de acordo com as previsões de entrega dos laboratórios.

 

Por O Tempo