O "Tiradentes" da globo

13/04/2016 | Luiz Mascarenhas

Em geral não disponho de muito tempo para assistir televisão. E confesso que não tenho esse hábito, não desmerecendo de forma alguma as pessoas que a ele se dedicam, porém, dado as minhas diversas atividades e idiossincrasias prefiro mesmo navegar pela Net, deixando ali o facebook aberto e ao mesmo tempo ouvindo minhas músicas (e sou muito eclético neste gosto, pois vou dos clássicos, passando pela música sacra ou colonial mineira e desaguando no pop rock nacional das décadas de 80 e 90 e até mesmo a música caipira ou de raiz) e/ou debruçado sobre alguma obra literária ( me obrigo a ler pelo menos dois ou três livros por mês; inclusive dos amigos que são escritores para dar minha pobre e incipiente análise crítica). E nas noites de quinta e sexta, junta-se a essa rotina o meu devotado e fervoroso culto a Baco, Dionísio ou Ceres = deuses pagãos há tempos esquecidos, degustando vinhos ou cervejas- conforme a salivação ou tendência alcoólica presente. E além- é claro- de dedicar-me ao ofício de escrevedor de coisas.

Neste interim, resolvi pousar os olhos sobre a tal nova novela das onze da noite, dita “Liberdade, Liberdade”.

O tema em si, não é tão simples quanto a maioria das pessoas imagina.

A Inconfidência Mineira de 1789 e o envolvimento de Tiradentes na mesma é alvo de uma gama volumosa de pesquisas e estudos e que resultam em um complexo cipoal bibliográfico. Porém, como esta temática é das minhas preferidas- a formação das Minas Gerais – e alvo de especializações e cursos e seminários; resolvi assistir ao primeiro episódio.

É claro, lógico e evidente que existe a chamada “licença poética” ou seja; se se trata de uma obra de ficção, dela pode-se esperar devaneios, fantasias e arranjos dos mais mirabolantes. Contudo, na minha tosca opinião, penso que em um país já tão carente de informação, de formação, de escolarização, de conhecimento da própria História a Rede Globo prestou –mais uma vez- um grande desserviço à Nação.

O alferes de cavalaria, Joaquim José da Silva Xavier, de alcunha “Tiradentes” abre a sua participação na fita, dizendo que “revolta se faz com guilhotinas como na Revolução Francesa”. O fato é que quando a famosa Revolução Francesa se inicia em Paris, no fatídico 14 de julho de 1789 com a queda da Bastilha, Tiradentes e alguns outros envolvidos na conspiração mineira já encontravam presos, desde o dia 10 de maio do mesmo ano. Ou seja, a Inconfidência Mineira antecedeu a Revolução Francesa.

Outro detalhe é que na minissérie se mostrou a prisão de Tiradentes em Villa Rica (hoje Ouro Preto) e a mesma aconteceu na cidade do Rio de Janeiro, aonde sofreu morte natural na forca no dia 21 de abril de 1792. Isso sem mencionar o cenário de Villa Rica; tão seco como Goiás e se esqueceram das dezenas de chafarizes que haviam na vila (alguns ainda restam para nossa apreciação). Bem como as ladeiras e os morros da região também. Assustei-me com o caminho para Ouro Preto povoado de cânions, mais parecido com a chapada diamantina na Bahia.

Tiradentes, certamente, não foi o líder do movimento que ficou conhecido como “Inconfidência Mineira”. Tão pouco foi um homem pobre e simples que alguns o pintam. Tinha posses, como se pode observar no processo movido contra os inconfidentes mineiros de 1798, pela Justiça da Coroa Portuguesa, o chamado “Autos da Devassa”.

Sabe-se que Inconfidência Mineira foi um movimento da elite da Capitania e que envolveu mineradores, poetas, escritores, padres, militares e com grande presença da Maçonaria. Teve grande influência das ideias dos Iluministas francesas e do movimento da Independência dos Estados Unidos, ocorrido em 1776. Inclusive tentaram contato com Thomas Jefferson, para auxiliá-los na sua empreitada.

Resta lembrar que a Inconfidência foi um movimento que de fato não aconteceu. Ficou restrito a seus planos, sonhos e reuniões na calada da noite. E assim como a Revolução Francesa, foi um movimento da Burguesia. E pouco se falava em libertar os negros escravizados, porque a maioria deles, era sim, proprietária de escravos. Era a elite das Minas tentando se livrar de suas dívidas, geradas pelos pesados impostos da Coroa Portuguesa – e eram inúmeros e não somente o famoso “quinto do ouro”.

Ciente estou que a obra da Rede Globo teve o caráter de uma ficção. No entanto, na minha falível opinião, gostaria que a nossa gente se inteirasse mais de nossa História, sem véus e sem fantasias…Quem sabe assim poderíamos construir uma consciência coletiva de Justiça, Liberdade, Democracia e os valores humanísticos tão ausentes desta Terra de Santa Cruz.

Finalizo indicando para quem se interessar, uma obra sobre o tema. Intitula-se “1789” e o autor é Pedro Dória.

Liberdade, liberdade…abre as asas sobre nós…

*Da Academia Itaunense de Letras

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