Polícia Federal vai investigar assassinato de Mãe Bernadete

18/08/2023 | Brasil

A líder quilombola recebia ameaças há pelo menos seis anos – Foto Arte sobre foto de Walisson Braga/Conaq

 

 

A Polícia Federal vai investigar o assassinato da líder quilombola Bernadete Pacífico, ocorrido na noite de quinta-feira 17/8, na cidade de Simões Filho, Região Metropolitana de Salvador.

 

A PF informou que as investigações ficarão sob sigilo. Uma força-tarefa da Polícia Civil da Bahia também irá apurar o assassinato.

 

Jurandir Pacífico, filho da líder quilombola Maria Bernadete Pacífico, assassinada dentro de casa na comunidade quilombola Pitanga de Palmares, em Simão Filho, região metropolitana de Salvador, informou que a mãe recebia ameaças há pelo menos seis anos.

 

Em entrevista à TV Brasil, Jurandir disse esperar respostas do governo da Bahia e do Ministério da Justiça para esclarecer o crime, o segundo do tipo a vitimar sua família.

 

De acordo com Jurandir Pacífico, a proteção policial que Mãe Bernadete recebia do estado por conta das ameaças se limitava ao monitoramento por câmeras de segurança instaladas na casa onde morava e visitas policias diárias que duravam em torno de meia hora. Para ele, o assassinato da mãe foi crime encomendado.

 

No mês passado, durante visita da presidente do Supremo Tribunal Federal, ministra Rosa Weber, ao Quilombo Quingoma, em Lauro de Freitas, cidade vizinha a Salvador, Mãe Bernadete relatou as ameaças sofridas.

 

Nesta sexta-feira, em coletiva de imprensa, a delegada do Departamento de Homicídios e Proteção à Pessoa, Andréa Ribeiro, explicou que as investigações são conduzidas com a colaboração de várias unidades da Polícia Civil.

 

Segundo a Polícia Civil da Bahia, as investigações não descartam uma possível correlação do assassinato da Mãe Bernadete com o de Flávio Pacífico dos Santos, filho da líder quilombola, morto em 2017.

 

A Secretaria de Segurança Pública informa que trabalha junto com representantes do governo federal para esclarecer o assassinato de Bernadete Pacífico. A Superintendência Regional da Polícia Federal na Bahia instaurou inquérito policial para investigar o homicídio.

 

Em nota, a presidente do STF, ministra Rosa Weber, lamentou a morte da líder quilombola, e fez referência ao encontro que tiveram em julho, na Bahia.

 

Weber destacou o relato que ouviu de Mãe Bernadete sobre a violência a que os quilombolas estão expostos e sobre a dor de ter perdido um filho morto com 14 tiros dentro da comunidade.

 

A presidente do STF pediu providências urgentes para o esclarecimento do acontecido e imediata proteção a familiares e outras lideranças locais.

 

O comunicado assinado por Weber conclui que é “absolutamente estarrecedor que os quilombolas, cujos antepassados lutaram com todas as forças e perderam as vidas para fugir da escravidão, ainda hoje vivam em situação de extrema vulnerabilidade em suas terras”, e clamou pela paz e garantia dos direitos individuais dos membros dessas comunidades tradicionais.

 

 

11 quilombolas foram mortos na Bahia nos últimos 10 anos

 

Vítimas foram mortas a tiros, dentro ou próximo de quilombos – Foto Redes sociais/ Conaq

 

 

Pelo menos 11 quilombolas foram mortos na Bahia nos últimos 10 anos, de acordo com um levantamento feito pela Coordenação Nacional de Articulação das Comunidades Negras Rurais Quilombolas (Conaq). Mãe Bernadete, assassinada a tiros na quinta-feira 17/8, é a 11ª vítima da violência contra quilombolas no estado.

 

Assim como a ialorixá do Quilombo Pitanga dos Palmares, que fica em Simões Filho, na Região Metropolitana de Salvador (RMS), a maior parte das vítimas foi morta a tiros.

 

O primeiro caso registrado no levantamento da Coordenação é o assassinato do filho de Mãe Bernadete, Fábio Gabriel Pacífico dos Santos, que aconteceu em 2017. O homicídio também aconteceu dentro do quilombo.

 

Pedido de socorro

 

Outra quilombola da Bahia, pertencente ao quilombo Rio dos Macacos, que também fica na Região Metropolitana de Salvador, pediu socorro ao presidente Lula durante evento do governo na Concha Acústica do Teatro Castro Alves, em Salvador, neste ano.

 

A liderança Rosimeire dos Santos foi até o palco, abraçou o presidente, se ajoelhou e depois lhe entregou um documento, que não teve seu teor detalhado durante o lançamento durante o evento. Lula assinou o papel e, logo depois, ela foi levada para as coxias.

 

Na carta, foram detalhados diversos assassinatos e torturas que teriam ocorrido dentro do território há pelo menos 10 anos. Os quilombolas associam os supostos crimes a disputa de terra com a Marinha, já que a situação existe desde a década de 70, quando a Base Naval de Aratu foi construída. Em 2014, militares suspeitos de agredir irmãos foram afastados.

 

Em nota, a Marinha informou que apesar do local ser uma área quilombola reconhecida, a entrada para a comunidade passa pela área militar. Neste contexto, a Marinha afirmou que sempre permitiu a passagem dos moradores, visitantes e órgãos governamentais.

 

A Marinha ainda disse que não há registros de conflitos recentes envolvendo os moradores da comunidade e militares.

 

 

 

 

 

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